19 de novembro de 2017

A CHAVE DA TERRA



Nei Duclós (*)

Vinho é território, o sabor
gerado pela História
mas o tempo, em excesso
não comporta o que só a poesia
nos contempla

Fronteira lusitana, lugar
que os povos inauguram
numa sucessão de espadas
e de gestos misturados
tantas raízes e nenhuma pista
do que é dito e fica oculto

Cobrimos o rosto com a neblina
Da memória. A paisagem varrida
pelos que nos formaram
hoje é descampado, o sol a pino
e outros momentos de convívio
traçam o perfil deste resgate

É sóbrio o encontro entre o sonho
e a realidade. Nem aos deuses
permitem usar a chave
Perplexos, os contemporâneos
se dividem diante do mistério

No fundo não é o que bebemos
mas algo anterior, que nos inspira
concentrado no mosto, síntese
de uma herança ainda viva
pré determinada pela técnica
e mais além, a narrativa

Tudo no fim some para sempre
Fica a palavra, pairando no tempo
que é a nossa nação, a língua,
pátria afetiva, beijo e sangue
ninho de um espólio, a terra
portuguesa e seu esplendor
o Alentejo

 


RETORNO - (*)Dia 18/11/2017 foi o lançamento da antologia DO MOSTO À PALAVRA, da Editora Chiado, de Lisboa, que reúne poemas selecionados sobre o Alentejo, escritos especialmente por autores convidados. .Adianto aqui a minha participação, com este poema:

FURACÃO



Nei Duclós

É limitado o que foi escrito
corpo datado entre espíritos
não viram a explosão dos ares
que são a base e os princípios

Não sabem o que veio agora
em que tudo em si se devora
nem a luz escapa desse vórtice
o presente que enfim danou-se

Passado e futuro ficam na masmorra
o momento é rei e nos esbagaça
viver é arruaça, a mente se ofende
os livros se atiram do alto da estante

Ponho um bilhete na redoma de vidro
e jogo no ar, entre os resíduos
o furacão o leva para uma estrela
lá vive um amor, feito de memória



18 de novembro de 2017

PROFUNDO VENENO



Nei Duclós 
 
Quando alguém te cerca
com palavras de desconforto
como "inveja do bem"
e outros troços marotos
não releve os sinais
não faça pouco dos brutos

Não finja que estás acima
e não combinas com o alvo
Que isso é só o que mostram
do mal que tão fundo escondem

Mantenha-se à distância
de dois tiros de escopeta
pois uma hora te atingem
com seu profundo veneno


ARTE DO CONFRONTO



Nei Duclós      

Letra é o que se desenha
ao som do que toca dentro
Nada a ver com os conteúdos
de pura reminiscência
Ou do que pronto imaginas
ser os vínculos do reino

A poesia trafega
na torta trilha do verbo
Onde não há benefícios
como pousadas ou janta
Há cactos e a chuva fina
Que congela rosto e dedos

Então, favor, não escreva
por acreditar na sorte
Deixe que a dor avance
sem que exista a doença
E te tome pelos pulsos
como pai nas águas turvas
atento ao nadar dos moços

A vocação é o de menos
Talvez o filho sem jeito
tenha nascido com o toque
Mesmo que de menino
pulasse fora do ninho

Poema é a canção primeva
Desenhada sem esmero
Alta arte de confronto
a cargo do amor mesquinho

                                

FLOR PEQUENA



Nei Duclós

Se no dedo de prosa
há uma flor, que é o poema
Mesmo não sendo a rosa
mas uma espécie pequena
colhida só pelo vento
e recolhida de um canto
Mas que expressa seu brilho
o porte do seu segredo

Rebento que ninguém nota
por ser de mato mais tenro
Misturada aos condenados
do corte do jardineiro
E sem batismo em catálogo
quem sabe não perde tempo
Mas que cabe na pesquisa
do dia posto em sossego

Por favor lhe reconheça
o papel que exerce cedo
O de gerar cumprimentos
entre quem se desconhece
E por isso é uma ponte
que terá chance com o tempo
Será flor que te ofereço
por ter valor em si mesma