21 de março de 2017

VERDES



Nei Duclós

Por mais que se crie
no gueto onde se confina a obediência
ou a revolta, ovos no mesmo cesto

Por mais que se diga
ficamos sempre no mesmo paradigma
Seguir ou descer do trem expresso
onde fiz de tudo, viagem adolescente?

Na dúvida, quando o comboio faz a curva
cruze o terreno, a via da qual tiraram os trilhos
E retorne ao oficio contra as evidências

Mestre de si, encha o bolso de rascunhos
Deixe uma trilha
de versos ainda verdes


RESISTIR



Nei Duclós

Poema não aconselha nem denuncia. já que incorpora a linguagem habitada pelo espírito.
Torna-se matéria capaz de peitar o desatino das palavras em ruinas que rolam na vida .
O poema resiste como alguém que fica por último para segurar os invasores, dispensando os aliados em direção a uma saída.
Antes, se despede, com suor na mira, filho de um deus sem batismo, humano entre as criaturas.


BRAÇOS



Nei Duclós

Dentro de nós a nação existe
feita de memória e árduo ofício
Costura frágil mas ainda explícita
palavra com postura digna

O presente espúrio é só um capítulo
que se desfaz como falso tecido
ele cobre a rua e torna-se invasivo
mas nada pode contra o amor ferido

Porque somos marcados pela sombra
não significa que manteremos a escrita
da dor e suas leis, eterna ruptura

No meio do conflito mostramos cicatrizes
quem haverá de negar o pobre heroísmo?
Temos dois braços para segurar o mundo


8 de março de 2017

WOODY ALLEN: O ESPECTADOR ENCARNA O CINEMA



Nei Duclós

Woody Allen coloca o espectador do cinema numa trama fundada em seus filmes favoritos. Como em Um misterioso assassinato em Manhattan (1993), em que o aficcionado em filmes antigos enfrenta o vizinho vilão na sequência final atrás da tela de uma sala de cinema onde passava A dama de Xangai (1947). Os filmes que fazem parte da narrativa são do mesmo gênero do filme que Allen produz.

Em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), a apaixonada pelo cinema acaba se envolvendo com um personagem do filme romântico que adora. O refúgio da sala escura iluminada pelas obras inesquecíveis, torna-se o cenário das obras de Allen, que assim pode trafegar pelas histórias que fizeram sua cabeça e fazem parte de sua persona de autor. Eu não cito, eu roubo mesmo, disse ele sobre seu hábito de misturar os filmes de sua preferência aos trabalhos que desova sucessivamente.

Woody Allen é um diretor com plena noção de que Todo filme é sobre cinema, titulo do meu livro que saiu pela Editora Unisinos. Allen ator, atrapalhado, hilário, cerebral, é o personagem sem chances de encarnar os seus mitos cinematográficos. Então interage com eles a partir da memória, sob o ponto de vista do elo mais frágil, o espectador.




6 de março de 2017

POEMAS DO FIM DO VERÃO


Ainda concentrado e fora do circuito, desenvolvo poemas com iscas de palavras que me ocorrem.

Nei Duclós

PLATAFORMA

Essa beleza que não é provisória
Que permanece como flor de poucas horas
Expressa em palavras repletas de memória

Subias num trem
e eu estava de uniforme
De vestido longo quase tropeçavas
Mas te recompunhas ao me ver pela janela

É dessa beleza que falo
Quando o amor se despedia da plataforma

INSTANTE

Nenhuma ideia vai fora
Nenhuma nesga de luz
Todo broto traz a aurora
Toda flor vem do que fiz

Juntei porções de aventura
Obras ainda por vir
O teu olhar me confirma
o peixe oculto no rio

A colheita é o que se aninha
no coração ainda frio
Não perco a nota mais pura
que no instante se afirma

BARALHO

É simples configurar um poema
Basta embaralhar as certezas
Colocar isca pequena em alto oceano
Avistar ilhas que os vulcões extinguem

Passar a limpo rascunhos mais urgentes
Guardar as sobras em virtuais estantes
Sentir-se útil ao desperdiçar sementes

Depois esperar que os passantes
joguem moedas de atenção no chapéu tosco

O poeta fica na calçada
escutando pássaros

ÚNICO ESPANTO

Moro nos meus pensamentos
cidade que subverte o tempo
Ruas que compus no vento
Bairros onde esqueci a infância

Nenhum mapa marca sua presença
Passagens aéreas de imprevisível pouso
Trens obsoletos perdidos no deserto

O não lugar parecido com despensa
Poemas pendurados em réstias
Fantasias que não se sustentam

Vivo debruçado na varanda
Enxergo a lua, meu único espanto

BANJO

Não precisa gostar
mas viajar junto
Nem ignorar
mas enxergar o ponto
Não é para conhecer
(outro departamento)
Nem mesmo admirar
não é um palco

Discernir entre obra e autoria
Saber apenas o que está escrito
Conceber a arte como carpintaria
Pintura dividida entre a tinta e o mito

Assim também a poesia
rabisco de anjo numa areia fina
Blues de um banjo banhado em flor noturna
Trabalho que Deus pergunta onde assina

NEI DUCLÓS

2 de março de 2017

POEMAS DE UM VERÃO SOMBRIO



Nei Duclós

Fez sol de rachar semanas sem fim, num calor insuportável. De molho por vários motivos, me dediquei a compor alguns poemas, no clima sombrio de uma época bruta e de sinistra claridade. Palavras de entrega e reação ao ambiente complicado. Puro exercício de linguagem.


MATÉRIA PRIMA

Prefiro a paisagem, que é teu gosto
a gana de ser, que nos transcende
o corpo é detalhe , o que se mostra
é o sonho que gera o próprio rosto

Vai além dos olhos, da postura
é a matéria prima que se presta
à providência, que é divina
por ser do mesmo material de espuma

COM A LITERATURA

Chego aqui com a literatura
Musa e rebento, cama e armadura
Ela te escolhe, rude companhia
A palavra dita criada em oficina

ESCUTA

Quanto menos exijo da minha arte
mais ela se solta
Não é preciso dourar a pluma
que se basta na precisão do voo

Autoria é ave criada em cativeiro
seu movimento é tosco, pé sem rumo
Tropeça por sua conta, e cria laços
Deve deixar livre o compromisso

Sou eu que faço, mas o mistério do destino
é essa criatura que se mostra
consigo mesma, como concha oculta
no mar que guarda em sua escuta

ARGAMASSA

Retribuo o aceno
o abraço virtual, puro desenho
ambiente onde projetamos a utopia
o convívio, varanda ao abrigo do sereno

O beijo também pode ser poesia
Mesmo a distância dispõe do raro acervo
A identidade humana, essa argamassa
em que, operários, repartimos tudo

PRESENÇA DO POEMA

A sóbria presença do poema
Nenhuma sombra a lhe ferir o esquema
Moldura de um aço de teimosa têmpera
que impulsiona navios afogados no peito

Perfil de sonoridade extrema
A que não se escuta mas que no tempo vence

NO EXÍLIO

Sobrevivemos às nossas certezas
que eram o mundo conhecido, hoje extinto
Notamos com pesar o desperdício
o esforço acumulado em sacrifício
Nada restou diante da ruína
que projetou sombra onde havia vida
Como sábios sem uso abandonamos manuscritos
e nos recolhemos em sítios de exilio
Garças sobrevoam a planicie
Elas forjam um poema em papel de seda
Das antigas palavras
recolhemos o dom da profecia

LONGE PERTO

Não gosto ver de perto
o enrosco da tinta
em rugas de pincel
Prefiro o que forma
no olho aberto
Na tela que conjuga
a cor e o vendaval

Se estiver longe
enxergo
a magia que íntima
se costura

CULTIVO NO ESCURO

O clima do pais mudou
já não cabe a poesia
A palavra se recolhe
no silêncio da oficina
Talvez seja sua sina
cultivar em tempo escuro
a luz que fica muda
no olhar que já não brilha

DEMORA

Demoro para responder
Acham que estou morto
Sei o que dizem
mas não me importo

Será isso a morte?


Nei Duclós