27 de agosto de 2016

OLHAR AVULSO



Nei Duclós

Sou o poema que tua arte abriga
és a obra onde a poesia vinga
Pura sintonia de um olhar avulso
Lance além da vida, 
começo de um convite

ARMAÇÃO



Nei Duclós

Preparo a armação da tenda agreste
Feita de lona e pão, edredons e sementes
Grãos que colhi em reinos do leste
E hoje alimentam minha aventura deserta

Aguardo que venhas toda a vida de areia
Água salobra dividida entre tigres
Fogueira em montanha avisa que vibra
Tuas cordas mais puras de intensa guerreira

Cansei na vigília do verbo amestrado
Deixei solto o cavalo que irá em teu socorro
Quando exausta chegares com os passos escuros

26 de agosto de 2016

BEIJO INSONE




Nei Duclós


Ao descansar meu rosto sobre o tempo
a palavra sugere aulas de solfejo
o corpo, por exausto, faz um gesto
negando a chance do programa
a cama ja está posta, há um engano
falta sintonia no conjugar do evento

Mas a palavra sonha para impedir o verso
de perder o poema, flor que me consome
É quando durmo sem entender que acordo
com a luz que jogas do teu beijo insone


OUTUBRO EM RITMO DE PRODUÇÃO



Nei Duclós

Em oportuna e valiosa visita aos Ingleses, o competente amigo Luiz Acácio de Souza veio para uma reunião hoje comigo e com a artista plástica Juliana Duclós para definirmos as coordenadas da 2ª Edição Comemorativa dos 40 anos do livro OUTUBRO.

Com o miolo já pronto, o trabalho agora entra em ritmo de produção, com a diagramação e projeto visual da Juliana, que homenageará a edição original do livro inesquecível e fazendo a arte necessária para a nova edição, que conta assim com seu talento e sua experiência.

Juliana foi a responsável pelo projeto visual e capa do meu romance lançado o ano passado, Tudo o que pisa deixa rastro, e do livro de crônicas e contos de 2008, O Refúgio do Príncipe, além de ser a artista responsável pela beleza visual dos meus ebooks..

Acácio é o produtor gráfico deste OUTUBRO revisitado, cuidando da qualidade do produto final e dos diferenciais que fazem de seus trabalhos modelos de produtos editoriais. É o nosso profissional atuando no front com a gráfica Coan, considerada a melhor de Santa Catarina. Já está em andamento também o preparo das ilustrações e capa, da edição original, a contratação da revisão e ficha catalográfica, entre outras providências.

Os recursos para a edição já começam a ser depositados. Além dos patrocinadores, entre eles meu irmão Elo Ortiz, várias pessoas já fizeram o depósito de 50 reais cada exemplar, garantindo assim o envio do livro autografado via Correio. Entre nessa celebração. Escreva para mim aqui nas mensagens do face ou pelo email neiduclos@gmail.com.

PERSON, UM GÊNIO NAS GARRAS DO BRASIL



Nei Duclós

Há tempos queria ver o documentário lançado em 2007 da Marina Person (assisti no canal Curta!) sobre o pai, Luiz Sérgio Person, que com apenas dois filmes, São Paulo S/A (1965) e O Caso dos Irmão Naves (1967) ocupa o top do ranking dos grandes cineastas brasileiros. O que me agradou foi a quantidade enorme de informações que eu desconhecia do gênio.

Fica claro no belo documentário que ele é um cineasta de forte influência do cinema italiano. Era um ator medíocre (como ele mesmo reconhecia) de cinema e TV e ganhou uma bolsa de estudos num instituto de cinema experimental na Italia e lá ficou por um ano e meio. Fez na Europa dois curtas premiados, Il Ladro e Il Ottimista sorridente. Voltou ao Brasil para filmar sua obra prima, São Paulo S/A.

A influência do cinema italiano é total na magistral saga de Carlos, o brasileiro sufocado pelos compromissos numa cidade que se industrializou rapidamente. Há muito Fellini nas cenas de desfrute inspiradas em la Dolce Vita, com Darlene Glória, estonteante, ou a visita que ela faz à mãe, tirada das memórias fellinianos de cenários vazios ao som do vento. E mesmo no ritmo da história, ambientada na Roma personiana, a cidade de São Paulo. Carlos é um Mastroianni perdido na voragem das mudanças, dividido entre a ética e o desperdício, entre a moral e a falta de escrúpulos, entre a família e a putaria.

Nos Irmãos Naves há uma carga pesada de Francesco Rosi e de Visconti. Mas Person acabou ficando sem dinheiro e tendo que vender seu talento para filmes publicitários e assim sustentar a família (mulher e duas filhas, Marina e Domingas). Fez sucesso depois de ter sido humilhado (olha lá o diretor de São Paulo S/A vendendo seus filminhos, diziam nos bastidores das grandes agências). Tentou investimentos para filmar a grande obra de JJ Veiga, A Hora dos Ruminantes, mas foi desencorajado: Ninguém vai ver isso! disseram. O Brasil é craque em sepultar projetos no ovo.

Partiu então para produções como Panca de Valente (que está inteiro no you tube, assim como São Paulo S/A) e Cassi Jones, o Magnífico Sedutor, que é uma homenagem que fez à chanchada brasileira. Achava o pessoal do Cinema Novo um bando de garotos cheios de ilusões e foi achincalhado como intelectual (que no Brasil é nome feio) do cinema. Comprou o teatro Augusta e montou peças como El Grande de Coca Cola,que foi o maior sucesso. Repartiu-se em muitos numa vida curta. Encorajou José Mojica Marins, fez filmes que não assinou, chegou a gravar cenas de um filme com Roberto Carlos etc.

Uma história típica brasileira. O gênio desperdiçado depois de provar seu talento. Morreu num acidente de automóvel dirigindo em velocidade numa estrada perigosa, aos 39 anos. Marcou a historia da cultura brasileira com seu brilho. Assim maltratamos quem nos trata bem.