18 de janeiro de 2017

DIAS REMOTOS




Nei Duclós

Ficou a imagem, não a identidade
lembro a criatura, não a pessoa
o resquício jaz na caixa anônima
mas nítido na moldura da retina

Quem é você, estátua ainda viva
que desafia o olho que vive à toa
passamos sem notar todas as pistas
mariposas mortas ao redor do fogo

Chuia do tempo de renovada força
sobrevivente aos embates do sonho
tudo seca, mas algo significa
como charada de oculto tesouro

Cavo na areia o nome que se esfuma
a biografia escassa que não registro
sinais ao leste, pás que me consomem
a chance perdida em dias remotos


 

16 de janeiro de 2017

SARAJEVO: A JUSTIÇA CONTRA A GUERRA



Nei Duclós  



Filme didático no Netflix, Sarajevo, de 2014, que contrapõe o álibi do império austríaco pela guerra ao esforço de investigação do promotor de origem judaica que descobre um complô no atentado contra o arquiduque herdeiro do trono e favorável à soberania da Servia. O investigador, interpretado por Florian Teichtmeister, tem uma aparência de Santos Dumond no bigode e no chapéu desabado. Anda de bicicleta perguntando os motivos de colocarem o príncipe e sua esposa de bandeja para o assassino sérvio, um dos dez financiados pelos algozes, que estavam postado no roteiro previamente divulgado nos jornais.

A inteligência militar estava por trás de tudo, para colocar a culpa na Servia, que nada tinha a ver com isso, e invadi-la, o que provocou a carnificina de 17 milhões de mortos na I Grande Guerra, envolvendo 40 países. A Servia soberana atrapalhava os negócios e a penetração ate Bagdá, uma rota que enriqueceria meia dúzia de maganos.

O filme narrado de maneira densa, protagonizado por um ator concentrado num personagem que descobre sua coragem ao permanecer fiel à lei, encontra na bela Melika Fourontan a janela para um futuro inviável, o amor e a família num tempo de mortandades. A chantagem cavernosa a que submetem o promotor, um homem solitário e dedicado ao seu ofício, está à altura dos interesses comerciais e políticos da potência imperial. O objetivo era saudar por uma Paris alemã.

O atentado, em Sarajevo, na Bósnia, se desdobra em dois momentos. No primeiro, o herdeiro escapa da bomba mas volta pelo mesmo roteiro e no segundo leva o tiro mortal ao lado da mulher que também se esvai em sangue. Por que? pergunta a Justiça. Porque sim, responde a guerra. O diretor é Andreas Prochaska e o roteirista Martin Ambrosch. Banho de cinema, com cenários sinistros, uniformes impositivos, semblantes ameaçadores, diálogos mortais.




15 de janeiro de 2017

PÁSSARO ABSOLUTO



Nei Duclós


Não cultivo as ideias
na literária oficina
Toda razão é indigesta
todo amor é sua vítima

Trato o gado pela base
entre lavouras da gleba
verbo com som de sino
rasgo de cheiro inculto

Construo a madeira leve
que há na pedra,ferros
de retorcido uso
vento grudado na nuvem

Só o poema faz sentido
no estratagema astuto
monge contrito e recluso
pássaro absoluto

Pomar de frutos extintos
de paraísos expulso
escriba que opera bruto
onde não medra o divino


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Luis Martins Sete

8 de janeiro de 2017

SIMILAR – IDENTIFICAÇÃO NA GUERRA FRIA



Nei Duclós

Em A Ponte dos Espiões, Spielberg aprofunda seu resgate dos princípios fundadores da civilização e da democracia

Todos são iguais perante a lei, mas não perante o cinema. Steve Spielberg, na sua missão de atualizar os princípios fundamentais da democracia americana, ainda cai na tentação de colocar o Outro Lado – russos, alemães, árabes – no lugar comum do cenário infernal e sinistro de ruas caóticas e prisões insuportáveis. Isso é que o mantém no conservadorismo, apesar do seu trabalho eficiente de opor a individualidade consciente e apoiada na Constituição às instituições pervertidas pelos interesses.

No filme Ponte dos Espiões (2016), Spielberg se debruça sobre a natureza similar dos indivíduos fieis à pátria, desde que essa fidelidade exija comprometimento com a ética, mesmo sob o clima pesado da guerra. E que não representam governos e nem apenas a si mesmos, mas a esse vetor ético fundador de nações.

Os dois personagens principais são encarnados com profunda competência (cool, minimalista, densa, focada) por Tom Hanks e Mark Rylence. Tom é Donovan, o advogado de seguros convocado para defender o espião russo Abel, nascido inglês. Uma defesa para livrar a cara da isonomia da justiça dos Estados Unidos, mas que no fundo ninguém torce pela absolvição, ao contrário. Rylence é o ganhador de Oscar de 2016 por esse papel (depois de ter surrado o mundo com sua magnífica interpretação de Thomas Morus na série Wolf Hall). Ambos se identificam na persistência às suas metas, sem abrir a guarda para as pressões institucionais. Estão sob suspeita e isso os aproxima, como a dizer que todos estão no mesmo barco e a guerra fria é um estagio obsoleto numa geopolítica que precisa mudar de estratégia para haver paz e sobrevivência da espécie.

A situação similar fica evidente em duas cenas idênticas. Em Berlim, Donovan vê da janela do trem que cruza a fronteira os jovens tentando pular o muro e serem metralhados por essa tentativa. Em Nova York, também num trem, ele vê com preocupação a mesma situação de garotos pulando as cercas internas dos bairros, numa citação explícita da obra prima West Side Story, que nos remete às guerras internas de gangues. Tudo muito atual: a substituição da guerra fria pela guerra generalizada e o perigo de voltarmos ao mesmo ponto de conflagração anterior. No filme, o esforço individual é reconhecido como promotor da paz, mas ao mesmo tempo, visto hoje, é mais uma batalha perdida da civilização possível.

Quando o espião Abel é libertado, diz para Donovan que pintou um quadro, que é o rosto do novo amigo. São as identidades similares que criam vínculos em momentos limite. A única saída é a persistência e a coragem. Spielberg só precisa abandonar a visão aterradora dos cenários do Outro. Reconhecer a humanidade do inimigo é um passo importante. Falta dar o passo do cinema. Não que vá pintar um quadro bonito de Berlim Oriental ou dos nazistas, mas precisa dar o mesmo peso e a mesma medida no que mostra em sua obra fundamental do cinema contemporâneo. Se há poucos gênios em atividade no mundo, Spielberg é um deles.


7 de janeiro de 2017

SOB AS ORDENS DE NETUNO



Nei Duclós

Vivi no alto mar, agora estou na terra
no cais da minha infância onde herdei o espólio
Meus pais velam no canto remoto das lavandas
há quadros de cardumes, esquadras de um império
Cenários que navego nas rotas da memória

Escrevo na varanda histórias de outras eras
bravura de marujos, doçura de sereias
Gaivotas me visitam ao sabor da ventania
me falam das mudanças e do assombro
dos mistérios. Do amor recebo cartas

Navios soam apitos quando passam perto
mensagens de viagens, ecos do deserto
Sou o velho capitão sob as ordens de Netuno
Perguntam se estou pronto para novas aventuras
a Deus eu me recolho nos livros e na espuma

Um homem tem seu norte na conquista do eterno
domínio sobre as ondas, vozes do caderno
minha caneta compõe a dura trajetória
o braço que foi forte, o olhar que rompe a aurora
e o tempo aos meus pés como um cão que dorme