18 de maio de 2017

SESSÃO DE CINEMA



Nei Duclós


Imagino melhor do que enxergo
A cena invisível é mais nítida
Alma é album de fotografias
Videos que ninguém compartilha

Sonho situações de enigma
Acordo assustado e lívido
De onde aquelas portas, colunas
Lugares que trafeguei dormindo?

Tudo se mistura à memória
Soma de recordações e roteiros
A vida é uma sessão de cinema

LER A PALAVRA



Nei Duclós

Aprendi a ler o que a palavra dita
sem a muleta sob a asa da entrelinha
Não que ela seja pão ou apenas queijo
Já que é refeição completa em cada letra

Não procure no chão a pista dos sentidos
Não depende de opinião o fato na medida
Sem especulação ela inaugura a trilha
Palavra é como cão, fareja o inaudível

Enxerga pouco, não por miopia
Mas porque depende do olhar preciso
De quem entende sem enganar o espírito

Ler é a solidão no escuro
Na hora que antecede o novo dia


ÍNTIMO DO SONHO



Nei Duclós

Mantive o rumo depois de perder tudo
Havia bússola feita de agulha e imã
E um barco a remo de borracha e lona

Bebi o sangue misturado das estrelas
em noite alta, vigília da lua cheia
E devorei as algas geradas pelo abismo

Mendigo do vento depois
que faltou forças
Cheguei na maré que carregava deuses
Vi Netuno chamar Zeus para o combate

Estive a ponto de surrar o templo
De mercadores com olhar de vidro

Nasci convicto de que serei presente
quando bater o sino, íntimo do sonho

Sou passageiro de ancestral comboio
Navego para descobrir um continente


É CRIME FALAR DE AMOR



Nei Duclós

É crime falar de amor entre as diferenças
Lotam cadeias com versos sob suspeita
Setas envenenadas fazem sentinela
Só permitem a velha reiteração do mesmo

Mas os amantes insistem nos sentimentos
no prazer a dois entre descontentes
jamais nos entenderemos, escasso rebento
o êxtase vem de alguém que desconhecemos

Querem impedir a paz que a natureza
providencia entre lençóis e rendas
a não ser que carimbem com o maior zelo
o que dizem ser correto, como um pêsames

Devo desistir de cortejar belezas
a que vemos no rosto e na inteligência
e me submeter à ordem unida dos desejos
como um soldado raso da razão violenta

Jogo fora as cores e outros procedimentos
identificados com o perfume mais flagrante
baixo os olhos quando tua glória esplende
fecho-me submerso na solidão do tempo


14 de maio de 2017

O DIA EM QUE ELA FOI EMBORA



Nei Duclós

Minha mãe se foi devagarinho
Já faz quase 40 anos
A respiração sumindo
Até parar na madrugada
em que houve um black out na cidade
no momento em que tocamos na alça
de sua definitiva morada

À tardinha daquele dia
quando enfim nos decidimos
a carregá-la pelas mais tristes ruas do mundo
caiu um granizo fino
a tamborilar no asfalto

Madalena, que morava no suburbio
E tinhha perdido a filha
Por muitos anos nossa babá e cozinheira
Soube pelo rádio e cruzou a pé a cidade
Com um ramo de flores para se despedir da amiga

Viajei no dia seguinte
Comprei a passagem com o dinheiro
que Dona Rosinha tinha reservado para mim
horas antes de morrer

Assim são as mães que dedicam aos filhos
o amor que eternamente pulsa
no pais que elas construiram
com a coragem do seu imenso coração


10 de maio de 2017

ÚLTIMO PEDIDO



Nei Duclós

Agora que está pronta
a receita que o longo tempo preparou
E você cruzou a ponte para a margem mais estreita

E leva de arrasto o que restou numa coleira
E pode esquecer cada grão da tua colheita

E meio torto andar sem ver direito o céu
ou a impagável dívida a que chamam vida
E é só ilusão

Tens o direito ao último pedido:
a página em branco
onde rabiscas o convite para a tua despedida
O poema ainda cativo
de uma vocação