22 de setembro de 2017

MORADORES DO DESERTO



Nei Duclós

Não fôssemos nós, os moradores do deserto
haveria apenas pó e nenhum poço
O vento varreria os vestígios
de quem se aventurasse
e a Lua ficaria só junto com frio

Mas permanecemos no território sem oásis
contando apenas com a vontade e algumas roupas
feitas de couro e sacos de aniagem
que sobraram do trigo, que era pouco

Hoje existem cidades nascidas em nossa sombra
onde acampamos só de passagem

Porque continuamos, plenos de coragem
Sabemos que é eterno o coração humano


21 de setembro de 2017

DIGA



Nei Duclós

Não force a barra da palavra
Não tente construções bizarras
Ela independe da tua vanguarda
É de lua. Toque e ela não atende

Gosta da lisa limpeza onde se deita
Vai pela trilha que bem entende
Presta o serviço se deixares livre
Diga o que pretende


20 de setembro de 2017

DEFESA



Nei Duclós

Defesa não é biombo
refúgio para o conforto
fora do corpo a corpo
batalha vista do morro

Vogal em mundo consoante
Número par entre primos
Louça com pele de vidro
Roupa perfeita em abrigo

Defesa é briga legítima
Reação no sol a pino
Ocasião feita de esgrima
Golpe baixo de surpresa

Não ache que por ser vítima
Alguém concorde em ser presa
Cobra morta na aparência
pula no meio da cena


O RAPTO DAS SABINAS



Nei Duclós

Tem quase 3 mil anos o hábito (hoje meio em desuso, imagino) de carregar a noiva quando os recém casados cruzam a porta da casa onde vão morar. Veio da Roma antiga, dos anos 700 antes de Cristo mais ou menos. Rômulo, o fundador, atraiu gente de todos os lugares para povoar a nova cidade. Como tinha uma homarada infinita, era preciso arranjar mulheres para que se formassem as famílias, já que a maioria era de proscritos e havia anistia para todo tipo de fugitivo e criminoso. Foi então que ele desencadeou o rapto das sabinas.

Os sabinos eram um povo poderoso e rico da vizinhança e foram atraídos a Roma por um grande evento esportivo de corrida de bigas e que se revelou uma armadilha. As mulheres foram raptadas e levadas á força para dentro das casas dos raptores. Plutarco fala em apenas 30, mas cita autores que falam em mais de 500 mulheres. Os sabinos tentaram dar o troco mas foram derrotados militarmente e acabaram fazendo acordo com o todo poderoso dono de Roma..

Mais tarde, os sabinos lançaram-se em nova investida, tendo conseguido penetrar no Capitólio e houve grande mortandade, que acabou graças à interferência das mulheres que tinham sido raptadas. Elas imploraram pela paz, pois reclamavam que foram abandonadas pelos pais, irmãos e maridos na época do rapto e agora que elas eram casadas com romanos e tinham filhos com eles e eram bem tratadas não podiam suportar a carnificina.

Os guerreiros então depuseram as armas e entraram em acordo. Rômulo dividiu o poder com Tácio, rei dos sabinos. Ambos governavam á parte mas mantinham reuniões para decidir o desfecho de cada decisão importante. As mulheres, por terem sido responsáveis pela paz, foram honradas e ganharam vários privilégios, como não serem julgadas nem por homicídio e serem tratadas com respeito por todos.

Foi assim que um gesto inicial em que o noivo levava á força a noiva para dentro de casa, carregando-a no colo, acabou sendo um hábito de mútuo consentimento graças à paz que se estabeleceu na cidade eterna..


DECIDO A SORTE



Nei Duclós

Amor viaja no fundo
meu barco a remo
teu corpo de veludo

Memória e futuro
O pampa doce
olhar de coruja

Caio no arroio
levanto no barro
Laço o rebanho

Jogo além do osso
decido a sorte
na cancha reta

Partirei em peças
te peço a bênção
almoço no alforge

Fugi ainda moço
agora volto
fora do confronto


RETORNO – Imagem desta edição: foto de Leticia Schinetsck

19 de setembro de 2017

NÓS, O POVO



Nei Duclós 

Decretamos o fim da falcatrua
escudados na legítima defesa
Pão na mesa, ar que se respira
linhagem de corpos sobre a cama

Braços que na lavoura sobrevivem
e nas cidades impõem a paz na rua
Punimos quem se arvora a ser torpe
e damos à lei o privilégio da força

Queremos continuar a cobrir a terra
força de Gaia, Afrodite bela
Hércules e Teseu, Hélade profunda
Brasis em brasas de poder e doçura

Nós, o povo, artigo único
Sepultamos o horror
que nos fizeram