26 de outubro de 2009

SEAN PENN EM MILK


Há várias críticas sobre Milk, de Gus Van Sant, das mais tradicionais às mais vanguardistas, mas prefiro abordar o filme como sendo uma demonstração de força de Sean Penn. Não se trata de um trabalho que retrata suas posições progressistas. Não é o fato de Sean ser a favor das minorias e da luta pela democracia que faz dele um grande ator. A arte não se vincula à percepção correta ou errada que o artista tem do mundo e da vida, mas sim ao seu talento e o que faz com esse dom. E o que ele faz neste filme, sobre o principal ativista gay americano nos anos 70, é um arraso.

Sim, claro, ganhou o Oscar. Não é esse o parâmetro. Interpretações pífias já venceram na noite de gala. O que se destaca é que ele desbastou o personagem de todo o entorno a que estamos acostumados a ver nele e emergiu com uma criatura oposta ao patrimônio conhecido do seu carisma. Aquela testosterona vencida que enruga testa e cria o ar hostil e de enfado dos heróis que interpretou, de 21 Gramas a Menino com Lobos, aqui é substituído por algo mais complexo, fundado não na autosuficiência do rosto, mas na precariedade do gesto estudado, segunda natureza de uma espontaneidade plantada, que bem poderia ser confundida com um acervo fake de interpretação.

Representar o homossexual é uma tragédia na indústria audiovisual de última categoria, com o Brasil na frente, com suas piadas de viado que tomam conta dos programas de humor. Mas Sean não representa, ele se transforma em Harvey Milk na luta pelos direitos humanos. As expressões do personagem são o resultado da desconstrução facial a que se submeteu o ator. Os braços que se movem nos comícios buscam a espontaneidade contundente, pois era preciso criar um novo estilo de fazer política, que fosse o porta-voz de um movimento de massa emergente.

Sean não sob no palanque sabendo tudo. Ele procura, e encontra, o desenho dessa personalidade sob fogo cerrado, e cria a ilusão de que está puxando (quando no fundo é empurrado) pelos que o apóiam e aplaudem. O ator mostra como o personagem, a partir de sucessivas derrotas, foi-se se colocando na maré alta de uma insurgência que tomara conta das ruas e explodia na cara de uma sociedade tradicional, que procurava se defender invocando princípios da tradição e da religião.

Convencer o seu público de que era preciso sair do armário, conquistar o voto dos indecisos, peitar a concorrência fundamentalista, abrir caminho na burocracia política, negociar sem fazer concessões (como acontecera com o advogado rico e dono de uma revista gay), tudo conflui para o corpo do personagem exposto na tela. Isso levaria um ator menos competente a se entregar ao exagero, a atrapalhar, com a emoção, a coreografia necessária para trafegar pelas cenas. Sean mantém sob jugo pesado a criatura que inventou, libertando-a quando necessário, fazendo assim jus à imagem pública do homossexual que não precisava se travestir para assumir.

Milk coloca terno para irromper na política, antro de retrógrados seculares, faz piada sobre a imagem pronta armada pelos preconceitos, duela com a decadência física nos seus embates do amor (que deságuam sempre em suicídio) e isso é construído por Sean como um concerto de câmara em atividade num camarote de ópera: o minimalismo é o espectador do grande drama, mas a lágrima escancarada do bel canto é a mesma do sofrimento contido, perplexo diante do desenlace iminente.

Não é com caricatura que se constrói uma grande interpretação, mas a performance genial inclui tudo, inclusive a caricatura. Sean não abre mão de nada, porque tem o domínio pleno do seu ofício. Venceu a parada não porque seja obrigatório ficar ao lado das vítimas da perseguição, mas porque toda arte que atinge o apogeu se impõe como um súbito temporal que varre o mundo no cair da tarde.

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