22 de janeiro de 2012

LENÇO


Nei Duclós

Quando você expuser o que sente pelos outros, dobre meu ser como um lenço e guarde na gaveta

O sentimento é uma criatura única no universo vazio, que concede ciclicamente um espaço para seu alvo mutante. Qualquer interferência fora disso desmancha a mágica

A mudança foi pesada, vamos deixar o amor nas caixas. Peça uma pizza e deite no assoalho sem móveis. Vamos aguardar a vinda da ave noturna do arrebatamento

Deveria deixar o domingo quieto como uma praça antiga abandonada. Mas cachos de flores estranhas brilham nos galhos das árvores mortas

Você ainda não acordou para o perigo. Dorme o sono reparador da falta de compromisso. Não sabe que te esperam com uma limousine preta e um vestido que é pura renda

Escrever no vento. Recolher letras grudadas na vidraça. Acenar momentos. Extrair lentos perfumes

Poeta não tem correia, tem correio.

Você coloca o sentimento em endereços remotos, enquanto meu coração mora ao lado.

Ela passa ao largo do meu estreito. Passa lotada pelo meu ponto. Passa por nada, pois há outros caminhos. Desaforada.

Dormi na caixa do correio esperando tua mensagem. Acordei com uma conta

Estou pronto para o passeio em Marte. Foi o que me prometeste caso aceitasse meu convite.

Dizes que sou intrincado, enigmático, impenetrável, que precisas de um dicionário.Não vejo motivo pois caprichei na minha versão de bolso.

Não vou pensar no teu caso. Soltei os cachorros que me deste para cuidar. Passei na lavanderia para pegar tua roupa e doei para a caridade. Sabe os ingressos para o show? Mastiguei.

Queres sair comigo, mas levas um amigo. Vou levar minha pit-bull

Liga, desconectada.

Estavas ocupada com tua turma de palermas. Vou demiti-los do planeta. Aguardem a nave

Tua resposta vai chegar tarde. Prevejo isso há um mês.

Tem horas que é preciso uma decisão. Volte!


RETORNO – Imagem desta edição: a modelo é Elizabeth Bordley (Mrs. James Gibson), o quadro de 1822, o autor é Thomas Sully (1783-1872).

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