11 de dezembro de 2017

A PROFISSÃO



Nei Duclós

Escrevo para ganhar o pão
Reporto na chuva e entro de sapato molhado na redação
Estou de plantão na madrugada
Cubro aeroporto depois do último avião

O vale sai na quinzena quando o sistema cai
E a multidão fica na fila do banco até anoitecer

Há barulho de trem na vizinhança
As janelas não fecham, do teto cai a fuligem

Publicamos em papel biblia o suplemento a revista
O texto tecido no frio brilha na gráfica

O século vinte se acaba junto com a profissão

RETORNO - Imagem desta edição: eu na redação de O Estado, de Florianópolis, em 1972. Foto de Cesar Valente. 


6 de dezembro de 2017

CEDO COMEÇA



Nei Duclós

Chove mansinho
Mal amanhece
Fresta do dia
Que cedo começa
O tempo contempla
Dezembro sem pressa
Apuro os sentidos
A vida se mexe


CHAPÉU DE FELTRO



Nei Duclós

Não falo mais do amor, gesto supremo
Porque partiram em dois, o mundo extremo
Onde não cabe o dom obsoleto
Essa comunhão, o sentimento

E também porque me fui depois de um tempo
À espera na estação, chuva de ausência
Fiquei a ver navios, chapéu de feltro
A desabar no frio do meu extenso
E já precário coração


RETORNO - Imagem desta edição: obra de Edward Hopper

5 de dezembro de 2017

CONVICTO



Nei Duclós

O que eu digo convicto é a virtude?
Sobre o sonho, o amor, a política?
O que espalho com rima na esquina
Em palestra de cara auto ajuda?

Minha razão é a única digna?
Sou perfeito se abraço o mendigo?
Se adoto o bichinho sem dono?
Se invisto na Bolsa a futuro?

Sou exemplo de Caminho do Meio
No templo cristão zen budista?

Ou seria a paixão nunca vista
Nas redes, jornais ou comício
a verdade que junto comigo
empresta no barro o divino?

A semente que a vida carrega
pelo tempo de fim imprevisto?


3 de dezembro de 2017

REPASTO DO TEMPO



Nei Duclós

Levamos muito tempo para ficar prontos
Esse rosto severo pela contingência
Que enterra a memória dos melhores anos
Esse corpo limitado pelos movimentos
Esssa visão crepuscular de pássaros mortos
E a esperanca, fase minguante de uma lua cheia

Observar a humana reincidência
Que ao redor repete os mesmos erros
E anotar, exausto, o que fica oculto
E que deveria ser a obra exposta

Eis o que te espera, repasto do tempo
E no entanto és forte, planta sobrevivente
Cantas sobre a folhagem que não se afoga no pântano

Não precisas de consolo, estranho sonho
Tens o que não sobra nos mais recentes
Essa luz intensa, cevada em sol levante





FILHOTE



Nei Duclós

Não quero que ninguém entre
Encerei o piso, fechei as venezianas
Cuido do tempo, filhote de pomba
Bateu contra o vidro e se recupera

Voará depois, me levando junto