30 de abril de 2017

A CORDA RETESADA



Nei Duclós

Nem sempre a palavra atinge o alvo
É quando volta para nós, tensos no arco
A corda retesada, a lingua solta
A traição da flecha envenenada

Queríamos esquecer mas já é tarde
O erro sobrevive ao pifio gesto
O de dizer à toa, obra dispersa

Enquanto fica imune o objeto
Ou o ser que dominava o rumo grave
Ele desaparece junto com a ofensa
E nós ficamos presos na tocaia


FUI DESCOBERTO



Nei Duclós

Fui descoberto pelos viajantes altivos
os que devassaram ilhas de mares sem lua
em tardes roídas pelo sal de Netuno

Estavam nas pedras formadas
antes do dilúvio
onde pombas pousaram com ramos inúteis
pendurados nos olhos de um tardio arco-íris

Eram apenas palavras em porção mais nítida
Em dia de homenagem a heróis sem batismo
Olhavam para mim em gáveas de neblina

Fui um fardo iluminado por um crime
o de deixar marcado em gélida planície
o poema que ninguém queria
mas que serviu de rascunho
para um tempo mais justo


29 de abril de 2017

FLAKED: MARGINAIS DO BAIRRO RICO




Nei Duclós


A única coisa real de uma obra de ficção é a linguagem usada para inventá-la. Não adianta fazer turismo por lugares descritos em romances, os lugares estão nos livros. Macondo fica nas páginas de Cem Anos de Solidão, mas pode ser Budapeste, Londres ou Toscana.

A esta altura do campeonato, em que a transparência é total em todas as mídias, os velhos truques de ilusionismo não funcionam mais na literatura e nos roteiros e é preciso enxergar o espelho que reflete a imagem, a luz que projeta o filme ou seleciona a ação num palco, a fala que define o lugar . Isso é o que importa, não os conteúdos, mas a mão que leva a até eles, os recursos do estilo, da sonoridade das palavras, as formas e volumes da composição visual.

Como são os romanos para Hollywood? São os caras que usam franjas caindo na testa, como notou Roland Barthes. Isso serve tanto para a época de Marlon Brando (Julio César) quanto a de George Cloney (Ave César). O detalhe visual vale por um perfil da coletividade em tempos remotos.

Na serie Flaked, de 2016 e disponível na Netflix, não importa se a história é sobre sujeitos sem grana perambulando por Venice, bairro rico de Los Angeles, seu casos, manias e brigas. Mas a coerência do roteiro ao definir a ação de cada personagem, tecendo a armadilha de quem finge mudar num mundo em transformação, mas se mantém intacto no passado.

Para isso as pessoas ao redor são envolvidas em redes de mentiras e meias verdades, que é o sentido mais ou menos da palavra que dá título à série, criada pelo ator e comediante canadense Will Arnett, que interpreta o boa vida Chip e suas manhas  para se manter à tona depois de dez anos amargando um erro do passado (atropelou fatalmente uma pessoa) e Mark Chappell . Nos destaques também estão David Sullivan, no papel de Dennis, o melhor amigo que acorda para o egoísmo do parceiro, e Ruth Kearney, como London, pivô do desentendimento entre os dois marmanjos que vivem juntos.

A perfeita carpintaria coloca em cena o ciclista ex-alcóolatra proibido de dirigir depois do acidente, seu amigo Cooler, além de Jerry, o ex-sogro e também senhorio na loja onde vende banquetes com design, ambos drogados, a ex-esposa milionária Tilly, a namorada Kara, o novo amigo Topher, rico emergente dono de start up, a mãezona de Dennis, que é ninfomaníaca, como se dizia antigamente,  etc.

O que parece casual revela-se consistente, com o deboche permanente da cultura fake das redes sociais, as frases feitas desvirtuadas por diálogos afiados e a falsa indecisão da história, que se desenvolve de maneira firme apesar das aparências descosturadas.

Tudo acaba conquistando nossa atenção e emoção. Não cheguei ao final, mas estou achando ótimo.

28 de abril de 2017

MUDANÇA



Nei Duclós

Seriam os móveis a alma de uma casa?
Os quadros na parede
a porta do pátio que não fecha?
Serão as marcas da pintura, a janela de vidro?
O espelho oval no corredor, as cortinas?

Essa é a sina da morada
quando se depara com a mudança?
A ausência da algazarra, a mudez da infância
Os ecos dos domingos de churrasco

Ou seriam as lembranças carregadas em cada peça?
As brigas, as conversas encontros, despedidas?

Ou será esse muro alto indevassável
que vemos no último minuto
quando partimos e deixamos um vazio de muitos anos?

Ao fechar o portão, desmoronamos


27 de abril de 2017

A TODO PANO

Nei Duclós

Não tenho do amor melhores referências
Nem da amizade recebo a melhor nota
Avesso ao humano estou fora da rota
Abrigo ninho de pássaros estranhos

Quem vê de longe me enquadra no rebanho
Perfil de pastor a quem acho que engano?
Quando me aproximo o alarme soa insano
Sou a confusão zunindo a todo pano

Voz de prisão, escriba veterano
Nasci de boa cepa, mas torrei parte da herança
Entrego no poema a torta confidência


26 de abril de 2017

CARAMEZ: DIRETO AO PONTO



Nei Duclós

Carlos Caramez lança A Vida das Sobras (Leitura XXI, 55 pgs.), seu terceiro livro depois de Última Safra do Silêncio e Construção das Ruínas. Sua poesia diz assim:


"Não sei que tempo é esse
essa não é a minha vida
esse não é o meu corpo
nem visto a minha roupa

não sou a pessoa que vocês procuram
não tenho o que vocês precisam
não faço o que vocês imaginam
não sei o que vocês querem saber"
(Carlos Caramez)

Suas palavras reportam o completo desmanche do indivíduo num país que ele define como sendo "sem noção". Na receita dessa tragédia pessoal e coletiva, as dívidas, os juros, a indiferença, a brutalidade das relações humanas, levam ao mau cheiro, à podridão, à morte da nação e da alma.

Ao fazer o serviço, sua poesia então procura definir o que lhe resta depois de tanta depuração. Não se trata mais do indivíduo, que dançou nessa roda hedionda de um Brasil sem fundos, na autofagia de uma situação terminal que se multiplica em todos os momentos. O que resta é a sua palavra:

"Preciso firmar meu ponto
nunca ficar pronto"

Caramez parece que se esconde por anos, depois retorna com a mesma cara lavada e sorriso bizarro. Ele é assim mesmo e este livro explica esse comportamento que trafega no escuro mas se dedica à vocação do sol. Ele nos ilumina com sua radicalidade. Não se trata do ombro amigo, da sensibilidade, da escola poética, mas da dedicação à verdade da sua palavra.

Um poeta que sempre faz falta. Que bom que voltaste, amigo estranho e distante que nos impacta com seu trabalho sem concessões e sem pose

"Vivo de sumiços
me evaporo sem ser visto
quando me identifico
apresento identidade"

Aí está o poeta. Lançamento dia 6 de junho no Festpoa Literária às 15h30min. No Instituto Goethe, rua 24 de outubro 112, Independência, Porto Alegre.

Vá lá conhecê-lo. Depois ele some.