18 de julho de 2017

SOPRO DE FRENTE



Nei Duclós

Quando canso de pensar, faço o poema
Nã por ser obscuro ou obsceno
Que se alinhe ao vinho ou ao feno
Ou tenha preguiça e quer se recolher

Mas porque nele a palavra se apruma
Respira fundo antes das palestras
Faz exercício para entrar em cena
Escolhe o destino do verso perfeito

Esvazio a mente para que o verbo
Encontre ambiente ao levantar âncora
Navega, meu canto, no mar da poesia
Sopra de frente na rosa dos ventos


SOL OBLÍQUO



Nei Duclós

Sol oblíquo permite que a terra mantenha
sua temperatura, o frio
Porque somos pedras soltas como a lua
A diferença é a água, contra a qual nos insurgimos
Poluindo tudo com nossa alma de granito

Somos alienígenas de planetas escuros
Que vieram colonizar o paraiso
De couro duro cortamos o gelo do pólo
Para servi-lo em copos de sal

O inverno é o perfil à altura dessa origem
Curvamos o sol todos os dias
Mas ele volta, deus que dá as cartas neste sistema
Que jamais nos impede de sonhar com a primavera


CORES E COREOGRAFIA EM MAGNIFICENT SEVEN






Nei Duclós

Vestidos de branco (a paz), os mexicanos de uma aldeia são atacados pelos bandoleiros chefiados por Calvero (Eli Wallach), que se veste de vermelho (a guerra). Os camponeses então contratam seu oposto, um pistoleiro (Yull Brinner), de roupa toda preta (o confronto que leva à vitória). Este, precisa de apoio e encontra profissionais que vestem a cor da amizade, o azul (James Coburn, Steve McQueen, Charles Bronson, Horst Buchholz).

Todo o filme The Magnificent Seven (Sete Homens e um Destino), de 1960, dirigido por John Sturges, e que é baseado em Os sete samurais, de Akira Kurosawa, é uma sequência de coreografias da ação e das cores, numa dança perfeita que representa o duelo entre o compromisso e a aventura, entre a terra (os aldeões) e o vento (os pistoleiros), entre o destino (a guerra)e o sonho (a paz que vem depois da luta). O preço a pagar é alto, mas de tudo fica um pouco, como o novo casal que se forma na refrega, a amizade que se consolida depois da missão cumprida, a tranquilidade devolvida à aldeia.



Vi mil vees esse filme e o considerava um faroeste médio, mas mudei de ideia. Faz parte do cânone cinematográfico principalmente pela rigorosa composição de personagens identificados por cores e gestos. A música, a cargo de Elmer Bernstein, é um clássico, impulsiona epicamente a narrativa, nos carrega para o miolo do drama. Yul Brynner é um dançarino. Seu andar estudado é a preparação de um salto maior em cena, pautado pela contenção, a frieza e a precisão. McQueen e Coburn são atores cool, que valorizam cada frase dita num rosto de pedra e um meio sorriso. Horst Buchholz é o arroubo juvenil e perigoso do destrambelhado que quer ação a qualquer custo e acaba se fixando à terra por meio de uma descoberta, o amor por uma camponesa.

Eli Wallach, a encarnação maior da impiedade no cinema, detona com sua hilária e assustadora performance do bandido que explora os mexicanos. ´Seu confronto com Brynner dá grande intensidade dramática ao filme, que em muitos momentos aposta nos aspectos cômicos, como a tourada do jovem pistoleiro diante de chifres de um animal manso. Faz parte da coreografia, essa alternância entre o drama e o humor neste filme que é uma referência no faroeste.




16 de julho de 2017

ARTE NO RITMO DA PALAVRA



Nei Duclós

Poesia é tirar o gesso da percepção que é formatada pelas palavras. Caímos nas armadilhas ao abordar e comentar os assuntos. O poema precisa ter força suficiente para puxar o olhar que pede socorro nas celas de vidro.

Quanto mais estranho for o verso, mais chance de quebrar o lacre. Acostumar-se ao que a arte instaura em nós é um exercício de libertação interna, que luta contra as recaídas. Não evoluímos ao sintonizar com a cultura. Regredimos sempre às origens da treva.

É preciso o esforço permanente de interação com a obra que existe em nosso auxílio para cruzar essa barreira que nos mantém afastados da criação e da paz de espírito, que é o movimento interno iluminado pela natureza das contradições. Viver dá trabalho. Envolve todos, numa gangorra de emoção e pensamento.

Escrever ou ler é sempre uma atividade autoral. O poema existe no momento em que é percebido. Antes disso está confinado no sonho de quem mergulhou no verbo. Pensar é lidar com palavras, escolhidas por nós ou pelos outros. Arte é agir. Mesmo quando há silêncio absoluto, terreno propício para a respiração lidar com o próprio ritmo.


REPARTIR



Nei Duclós

Aprendi a repartir ainda na família
na mesa com irmãos, primos, tias
além da contribuição das visitas
porções que pai e mãe providenciam
fome sob sujeição para não haver briga

Depois na revolução, com hippies, marxistas
e também colegas e amigos sem ideologia
escasso era o pão no reduto das repúblicas
havia ainda o cigarro, o almoço, a bebida
tesão das conversas que jamais terminam

Mais tarde ao juntar nenhuma economia
ao amor que nasceu no tempo de conflitos
estávamos na mão e o muito pouco era tudo
dividíamos para que houvesse sobrevida
Época heroica de onde nasceram os filhos

Mais importante foi repartir a razão na política
ceder para manter o tom que nos civiliza
e avançar com ideias quando fosse possível
no rodízio considerado sempre uma utopia
mas que nos ampara no caos que acabou vindo

Hoje repartimos a desilusão como pão dormido
intragável refeição nas ruínas das promessas
mas temos a impressão que vamos sair dessa
pois herdamos um coração, a fonte solidária
mesmo que impere o não, é só o que interessa